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sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

CADERNO DE ANOTAÇÕES (11)

Livros lidos e anotados:

A FLOR E O ANTIDOTO, poemas de Fernando Whitaker da Cunha. Verbo denso, música enérgica e grave. Temas fundamentais. Profunda sinceridade. Lembra Unamuno na extraordinária força expressiva.

DESTINOS DE CONTRATEMPOS, de Fontes Ibiapina. Mais um livro do excelente contista. Interpretação da vida social nordestina, do meio, do homem - reflexo da Linguagem das crendices, dos hábitos, dos costumes, de miséria, dos tabus - gerando os dramas profundamente humanos que Ibiapina narra com fina ironia.

A REDOMA (contos), de Eliza Barreto. Livro trabalhado com arte, domínio e sutileza. Não há heróis, mas dramas particulares. Harmonia do conjunto. Substituição do descritivo pelo psicológico. Fixação de realidades íntimas, complexas e dolorosas da alma humana.

TUPI E GREGO, de Faris Antonio S. Michaele. Na obra o autor revela grandes conhecimentos dessas línguas, e os transmite com riqueza de expressão, harmonia estilística e propriedade dos termos. Lições magistrais aos estudiosos a respeito de elementos tupis e gregos bem vivos na língua portuguesa.

SOLDADOS DE TIRADENTES, de Celso Pinheiro Filho e Lina Celso Pinheiro (pai e filha). Laboriosa pesquisa de levantamento e estudo da história da Polícia Militar do Piauí, numa linguagem simples e fortemente comunicativa. Celso escreveu os vinte e nove capítulos iniciais. A morte arrebatou-o em meio ao significante esforço. A filha inteligente concluiu a obra, com a mesma dedicação.


A. Tito Filho, 29/04/1975, Jornal do Piauí

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

CADERNO DE ANOTAÇÕES (7)

VITÓRIA - Castro Aguiar (Joaquim), muito jovem ainda, é dos melhores lutadores intelectuais que conheço. Reside hoje no Rio, mas aqui deixou traços de inteligência bem cultivada. Deu a vida literária do Piauí dois romances, de boa linguagem literária, estilo vivo, colorido, conteúdo psicológico e social merecedor de analise e estudo. Comentei-os quando do aparecimento de ambos. Na terra carioca, Castro Aguiar dedicou-se ao Direito, alimentando-se de aprofundadas leituras para a seriedade da interpretação de leis reguladoras de direitos e deveres do servidor público, notadamente o servidor municipal. E escreveu "O Servidor Municipal", apoiado sôbre a melhor doutrina, na jurisprudência mais atualizada - livro sério que revela o jurista, o sociólogo, o hermeneuta. Mandou-me exemplar cuja leitura agora encerrei para aumentar conhecimentos com tantas lições de ordem, da disciplina, de orientação jurídica relativamente a tantas questões controvertidas, que Castro Aguiar debate, esclarece, jurídicas nacionais e o Piauí sente a projeção de resolve. Enriqueceram-se, com a obra, as letras mais um filho ilustre.

AS NOTAS:

1) João Bezerra da Silva, sempre a serviço do Livro, incentiva-me com esta mensagem: "Ao ilustre chefe e dedicado amigo de todos compartilhamos jubilosos data natalício desejando votos perenes felicidades com elevada estima da Editora Piauí Limitada".

2) Prêmios valiosos foram distribuídos pela Delegacia da Receita Federal (José Ribeiro Gonçalves), em expressiva solenidade na Rádio Pioneira. Presença de diretores de grupos escolares, professôres, pais e mães dos premiados no concurso promovido pelo Ministério da Fazenda e coordenado, em todo o Piauí, pela Secretaria de Educação (Cecília Mendes). Os alunos contemplados estudam em Teresina, Parnaíba, Picos, Campo Maior, Floriano, Pedro II, Bom Jesus e Esperantina.

3) Da professôra Atelita Batista da Silva Amorim: "As Oficinas de Artes Industriais de Teresina e Parnaíba auguram-lhe os melhores votos pela passagem de seu natalício".


A. Tito Filho, 01/11/1970, Jornal do Piauí.

sábado, 28 de agosto de 2010

CADERNO DE ANOTAÇÕES (4)

De Orisvaldo Bugyja Britto, este comentário:

"Por volta de 1947, indo a São Luís, em viagem de passeio com demora de uns trinta dias, freqüentava, assiduamente, a Biblioteca Pública e a Livraria Universal, no Largo do Carmo, que já tinha o nome oficial de Praça João Lisboa com uma estátua do eminente jornalista e municipalista João Francisco Lisboa.

Na Livraria, que ficava no térreo de um dos sobradões de azulejo, de que muito se ocupa o acadêmico Josué Montello, eu sempre prosava com o seu proprietário Ramos de Almeida e com outro assíduo freqüentador - o professor, polemista e jornalista Nascimento de Moraes.

Já naquele ano, ele velho e trôpego, mas de lucidez admirável, nascimento de Moraes era, ainda, uma figura oracular e uma espécie de código a quem todos consultavam sobre fatos da vida histórica, politica e cultural do Maranhão e de sua velha Metrópole fundada em 1512 por Daniel de la Touche - o senhor de La Ravardière.

Interessante dizer que Nascimento de Moraes havia escrito e publicado em O IMPARCIAL em 1913, uma monumental critica com o título MARTINS NAPOLEÃO E O MOMENTO LITERARIO BRASILEIRO.

Esse trabalho foi transcrito aqui no Diário Oficial do Estado, e eu o havia lido e relido, como revisor e redator daquele órgão oficial.

Mas nas minhas andanças na Livraria Universal, de Ramos de Almeida, certo dia o livreiro me fez presente de exemplar da LIRA SERTANEJA, de Hermínio Castelo Branco, informando-me de já se achar esgotada a edição. Era uma brochura feia, mal paginada, composição em tipo manual - feia e anti-estética. Capa de papelão pardo e na primeira face desenhada uma lira (o instrumento musical) em amarelo.

Parte daí a grande diferença diante desta edição elaborada, corrigida, composta e impressa no governo do Sr. Alberto Silva. Diga-se mesmo que não há termo de comparação entre a edição Ramos de Almeida e esta do Governo piauiense atual.

Aquele exemplar antigo me foi pedido pelo comentarista de imprensa, já falecido, Eurípedes de Aguiar, que aproveitando alguns termos empregados por Hermínio, desancou um figurão da politica nacional aqui mandado como observador do então Presidente da República, nas questões do PSD e UDN.

Não só na feitura gráfica se nota a grande diferença entre aquela e esta edição. Agora surgiu um volume de rara magnitude em se tratando de livro simples de poesia brejeira ou matuta (brejeira é termo caipira). Tem a enriquecê-la o notável trabalho lexicológico do gramático José de Arimathéa Tito Filho que é, sem favor, a maior expressão literária, no momento, dentro desde 250 mil quilômetros quadrados do território do Piauí.

Lá fora temo piauienses brilhantes, porém, servindo a SANTA TERRINHA, com abnegação, vivencia e convivência por aqui ninguém supera Arimathéa Tito Filho. Outro trabalho digno de louvor nesta edição é esse escrito por Celso Pinheiro Filho, à guisa de prefácio. Veja-se a feliz coincidência: Arimathéa é barrense, filho de barrense; Celso Pinheiro é teresinense filho de barrense, ambos ilustrando a obra literária do barrense Hermínio Castelo Branco!

Nos versos de Hermínio Castelo Branco a gente sente o motivo, a ingenuidade de quase pureza do sertanejo, o seu meio, o seu ambiente social e a filosofia prosaica naquele viver feliz e tranqüilo. Hermínio fez a mais bela prosa em poesia - o que é cousa difícil.

O nosso caboclo sente isto, mas não sabe dizer, e Hermínio disse ou diz por ele. Vejam-se estas sextilhas a alma sertaneja em cantiga de São Gonçalo:

Eu ainda estando morto
De três dias enterrado,
Ouvindo tocar viola
E vendo o baião formado,
Arranco já dos infernos
Fedendo a chifre queimado

E para entrar no baião ou dança de pobre, que nas cidades se chama FORRÓ, Hermínio Castelo Branco enxerga na alma sertaneja isto, que ele pensaria de fazer quando a caminho ou à entrada da casa da festa:

Mato cem dum pontapé,
Duzentos dum empurrão,
Trezentos dum cocorote,
Seiscentos dum pescoção,
Carrega pra riba de mim,
Vem morrer sem confissão.

Na minha opinião - aliás desvaliosa - o vaqueiro do Piauí é diferente do vaqueiro dos outros estados. Ele é também lavrador e boêmio, como em Aparecida, cidade piauiense entre Jerumenha e Urucuí, Alto Longá, Castelo, São Pedro e Corrente de São Benedito, hoje chamada Beneditinos. Como tal, Hermínio Castelo Branco, não há (como) negar, tem no vaqueiro o fiel propagador, o indiscutível mensageiro de seus versos, de sua lira, como eu conheci antes de ler o livro, recitadas por crianças estas sextilhas:

Era no mês da mutuca,
Fins dágua vinha chegando,
Quando o gado sai da mata
Na carreira, escramuçando,
Se deram estas façanhas
Que eu por aqui vou contando
Nesse tempo dos prazeres

Do diligente vaqueiro,
Quando ferra suas sortes
Casa parta no chiqueiro,
E se o dono da fazenda
Não é sujeito estradeiro.

São versos que andam de boca em boca, tal qual os de Casimiro de Abreu, Raimundo Correia e outros, a modinha O GONDOLEIRO DO AMOR e muitas outras.

Em 1950, quando eu era o principal redator de ESTADO DO PIAUÍ, em mais uma fase de circulação sob a responsabilidade do destacado barrense Josípio Lustosa, desde maio de 1957, fiz uma carta-aberta naquele jornal ao então Governador Chagas Rodrigues, por sinal também parnaíbano, na qual sugeria ao Chefe de Estado reedição de obras notáveis de piauienses notáveis, principalmente. De autores não piauienses parece que lhe sugeri a CRONOLOGIA HISTÓRICA, de Francisco Augusto Pereira da Costa, editada uma única vez pelo Governo Anísio de Abreu, em 1908, e inteiramente esgotada. Falei, também da narração do Engenheiro Dodt, do Rio Parnaíba, com prefácio de seu neto Gustavo Barroso.

Citava eu obras de Clodoaldo Freitas, do célebre Engenheiro Sampaio - filho da Vila do Livramento, hoje José de Freitas, de Abdias Neves e de muitos outros filhos deste Piauí.

Como resposta às sugestões, obtive o silêncio. Certamente, creio, pelo desvalimento de quem sugeria. Veio-nos agora este outro parnaíbano para - sem que ninguém lhe pedisse ou sugerisse tamanha iniciativa - desbravar o assunto e exumar aquilo que se soterrava há longo tempo.

Alberto Silva é um governante de escol, que conquista o espírito de primeira grandeza que não o meu, que sou pequeno e não uso muito aproximar-se dos mais poderosos.

Mas não deixo de ser um dos seus admiradores incondicionais neste setor da vida pública e em alguns outros empreendimentos que Sua Excelência toma aos ombros num rasgo de liberdade e patriotismo.

A equipe que o ajuda é boa, magnífica e despretensiosa, como é o caso da Academia Piauiense de Letras, sob a égide de José de Arimathéa Tito Filho”.


A. Tito Filho, 02/12/1972, Jornal do Piauí.